Saudades do Chiado
Quem cresceu ouvindo o Rádio AM sente falta sim daquele chiado que nos obrigava a virar o aparelho para a esquerda ou direita, a fim de limpar o som e deixar a mensagem mais clara
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Não é crítica e tampouco desprezo pelos colegas que hoje alimentam as FM’s e se dividem em estilos, ritmos e segmentos, mas me faz falta o bom e velho Chiado do Rádio AM.
Nasci e cresci no Santa Mônica onde um milagre acontecia por volta das seis da tarde quando o sol se punha e a umidade da noite ampliava o alcance das Ondas Médias. Do nada apareciam vozes de São Paulo, do Rio de Janeiro, da Bahia, do Rio Grande do Sul e até de outros países. Silêncio geral para ouvir a música, tentar entender o que o locutor falava e, principalmente, ouvir o prefixo para localizar de onde vinha aquela mensagem, aquele recado.

Quem cresceu ouvindo o Rádio AM e a sua maionese de informações, músicas, recados e serviços sente falta sim daquele chiado que nos obrigava a virar o aparelho para a esquerda ou direita, a fim de limpar o som e deixar a mensagem mais clara e nítida.
Hoje temos grandes emissoras em Frequência Modulada, chamadas de FM, com boa parte delas segmentadas, servindo cada qual a um tipo de ouvinte que tem sua preferência pela mensagem religiosa, pela música sertaneja, pelo rock, pelo flash back e assim vai. Som fantástico, falas curtas, comerciais bem embalados, mas com algumas restrições. Na migração do AM para o FM muitas emissoras mudaram de estilo e perderam potência, fazendo com que as beiras de rios, os vales naturais e parte das estradas ficassem mudas ao cair da noite.
De vez em quando me pego numa estrada querendo saber o resultado do futebol e nada, busco informações sobre os últimos acontecimentos e nada, espero um recado lá das bandas perdidas do Amazonas e nada. Nesta hora bate uma saudade do Chiado, daqueles recados e locuções que nos transportavam para realidades diferentes, problemas esquecidos e até mesmo a ilusão do horóscopo, a esperança da loteria e a agonia de quem estava longe de casa num tempo sem internet, sem whats, sem face e até mesmo sem o telefone para abrandar a saudade.
Me lembro que na porta do Messias Pedreiro antes das sete da noite, os amigos mais astutos com seus fusquinhas envenenados acionavam seus rádios equipados com o fantástico Tojo, e ai aparecia a Rádio Mundial com as músicas que hoje desfilam pelas FMs, acompanhadas de locuções românticas, apaixonadas, cheias de emoção e mais tarde se buscava a Rádio Globo ou a Tupi do Rio para conferir os jogos de futebol, ou então a Globo São Paulo, a Bandeirantes, a Jovem Pan para saber das equipes paulistas. Havia ainda a poderosa Rádio Nacional de Brasilia com o impagável “Eu de Cá, Você de Lá” que promovia romances entre todos os estados do Brasil.
Chiado faz falta
Não quero ser um saudosista aborrecido e nem ficar remoendo lembranças, mas me pergunto se o Chiado não faz falta para outras pessoas e se não fará falta para uma geração inteira que já recebe tudo pronto a qualquer hora e basta ter um wi-fi para resolver qualquer dúvida sem a necessidade de imaginar, sonhar, pensar e até flutuar na própria história, mergulhar na própria dúvida, imaginar soluções que ainda não existem.
Não precisam concordar comigo, mas para quem surfou pelas vozes e interpretações de antigos locutores do AM, o Chiado faz falta.
Neivaldo Silva “Magoo”
Jornalista, radialista e ex-vereador
*Esse é um texto independente e não reflete, necessariamente, a opinião do Portal