Paris aponta a medicina regenerativa como caminho para a estética
Após participar do maior congresso mundial da área, Dra. Gláucia Milhomem defende uma virada na dermatologia: menos excessos, mais regeneração e escuta ativa
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A estética viveu nos últimos anos uma era de excessos. Procedimentos padronizados, resultados imediatistas e uma busca quase automática por transformação ganharam espaço nas redes sociais e nos consultórios. Em Paris, durante o IMCAS World Congress, no final de janeiro, encontrei um movimento claro de mudança. A medicina regenerativa se consolida como o caminho mais consistente, seguro e responsável para o futuro da dermatologia.

Não se trata de uma tendência passageira. Trata-se de uma correção de rota.
O que vi no congresso foi uma comunidade científica discutindo longevidade, qualidade de pele e estímulo biológico com profundidade. A proposta deixa de ser preencher, esticar ou modificar traços e passa a ser fortalecer estruturas, estimular colágeno, melhorar a saúde cutânea e respeitar a individualidade de cada paciente. A transformação dá lugar à regeneração.
Essa mudança é necessária. A pressa por resultados imediatos muitas vezes desconsidera limites biológicos. O corpo tem tempo. A pele tem processo. Ignorar isso pode gerar frustração, artificialidade e, em alguns casos, complicações. A medicina regenerativa surge como resposta a esse cenário ao priorizar estímulos graduais e resultados progressivos.
Durante as palestras, ficou evidente que a ciência caminha para protocolos combinados, terapias que ativam mecanismos naturais do organismo e abordagens que trabalham de dentro para fora. Não é apenas sobre aparência. É sobre funcionalidade e qualidade tecidual. É sobre envelhecer com estrutura preservada, não com traços alterados.
Eu já atuo nessa linha e saí de Paris ainda mais convicta de que esse é o caminho que desejo aprofundar. A medicina regenerativa exige estudo constante, atualização científica e senso crítico. Ela não oferece atalhos. Oferece consistência. E, para mim, consistência é sinônimo de responsabilidade médica.
Os avanços em tecnologia também impressionaram. Equipamentos mais precisos, lasers com maior seletividade, dispositivos capazes de personalizar parâmetros para cada tipo de pele. A inovação é real e necessária. Mas há um ponto que precisa ser reforçado: tecnologia não é protagonista. Ela é ferramenta.
Nenhum aparelho decide sozinho. Nenhum protocolo deve ser aplicado de forma automática. O raciocínio clínico continua sendo central. Em Paris, ouvi repetidamente que personalização é a palavra-chave da nova dermatologia. E personalizar exige escuta.
A escuta ativa não é discurso. É prática. Antes de indicar qualquer tratamento, é fundamental compreender expectativas, inseguranças e limites. Muitos pacientes chegam influenciados por filtros, tendências digitais e promessas rápidas. Cabe a nós, médicos, orientar com clareza, explicar possibilidades reais e construir resultados que façam sentido a longo prazo.
A estética do futuro, se depender do que foi discutido no congresso, será menos sobre padronização e mais sobre identidade. Menos sobre volume e mais sobre qualidade de pele. Menos sobre impacto imediato e mais sobre longevidade.
Também ficou evidente a integração entre estética e saúde. Falar em rejuvenescimento hoje envolve prevenção, hábitos de vida, acompanhamento contínuo e visão global do paciente. A pele não é isolada do restante do organismo. Ela reflete escolhas e condições internas. Ignorar isso é simplificar demais uma área que se tornou cada vez mais complexa.
Participar de um evento dessa dimensão reforça uma responsabilidade: nem toda novidade deve ser incorporada de forma precipitada. O entusiasmo precisa ser acompanhado de evidência científica e segurança. O papel do profissional não é seguir modismos, mas filtrar o que realmente agrega valor ao paciente.
Volto de Paris com uma convicção clara. A medicina regenerativa não é apenas uma inovação técnica. Ela representa uma mudança de postura. Representa respeito ao tempo biológico, à individualidade e à naturalidade.
Escolho seguir esse caminho, aprofundar meus estudos nessa área e aplicar, de forma ética e criteriosa, o que a ciência tem mostrado como mais promissor. Porque acredito que a verdadeira evolução da estética não está em transformar rostos, mas em preservar histórias, fortalecer estruturas e cuidar da saúde da pele com inteligência e sensibilidade.
Se há uma direção apontada em Paris, ela é inequívoca: o futuro da dermatologia será regenerativo, personalizado e humano. E é nessa direção que pretendo continuar construindo minha prática.
Por Dra. Gláucia Milhomem
Farmacêutica
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