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O Brasil precisa decidir: ser consumidor ou protagonista na ciência da cannabis

O que antes era tratado como um tema restrito à saúde pública hoje envolve também ciência, agricultura, inovação tecnológica, indústria farmacêutica e desenvolvimento econômico

Beatriz Marti Emygdio , em Uberlândia

Cannabis
Imagem: Internet/Reprodução

O debate sobre a cannabis medicinal no Brasil evoluiu rapidamente nos últimos anos. O que antes era tratado como um tema restrito à saúde pública hoje envolve também ciência, agricultura, inovação tecnológica, indústria farmacêutica e desenvolvimento econômico.

Esse avanço trouxe um dado incontornável: o país já possui centenas de milhares de pacientes em tratamento com produtos à base de cannabis, e o mercado cresce de forma consistente ano após ano, aproximando-se da marca de bilhões de reais. No entanto, enquanto o acesso avança, a base científica e tecnológica nacional ainda está em construção.

Esse descompasso precisa ser enfrentado com seriedade.

O Brasil está diante de uma escolha estratégica: permanecer como importador de conhecimento e genética ou investir na construção de uma base científica própria, capaz de sustentar um setor produtivo moderno, competitivo e soberano.

Existe uma percepção comum de que a discussão sobre cannabis se limita ao uso medicinal. Mas, na realidade, toda cadeia produtiva começa muito antes.

Ela começa na genética vegetal. Começa no melhoramento. Começa na pesquisa.

Sem sementes adaptadas às condições brasileiras, não há autonomia científica possível. A dependência de material genético estrangeiro limita o desenvolvimento de soluções ajustadas ao nosso clima, à nossa agricultura e às nossas necessidades regulatórias.

Construir conhecimento sobre a espécie é um passo essencial para qualquer país que deseja desenvolver uma cadeia produtiva sustentável. Isso significa investir em pesquisa básica, conservação de recursos genéticos, desenvolvimento de cultivares e formação de pesquisadores.

Um mercado que cresce mais rápido do que a ciência

O Brasil já vive uma expansão expressiva no uso da cannabis medicinal. Estimativas recentes do setor apontam que o país conta com mais de 870 mil pacientes em tratamento e um mercado que se aproxima de R$ 1 bilhão, com projeções de crescimento contínuo nos próximos anos.

Esse crescimento é positivo do ponto de vista do acesso, mas traz um desafio importante: a ciência precisa acompanhar o ritmo da demanda. Sem pesquisa nacional estruturada, o país corre o risco de depender permanentemente de tecnologias desenvolvidas em outros contextos, com outras realidades ambientais e produtivas.

A construção de uma base científica sólida depende de investimento contínuo em pesquisa pública, formação de recursos humanos e integração entre instituições, universidades e setor produtivo.

A ciência tem um papel fundamental: gerar evidências, reduzir incertezas e apoiar políticas públicas baseadas em conhecimento técnico.

No caso da cannabis, isso inclui desde o estudo do sistema endocanabinoide até o desenvolvimento de soluções agrícolas, genéticas e tecnológicas adaptadas à realidade brasileira.

Sem essa base, qualquer avanço regulatório ou de mercado se torna limitado.

Outro ponto essencial é a relação entre regulação e pesquisa. Avanços regulatórios são importantes para garantir segurança jurídica e permitir o desenvolvimento de estudos científicos mais amplos. No entanto, regulação isolada não gera inovação.

Da mesma forma, pesquisa sem ambiente regulatório adequado não consegue avançar. O equilíbrio entre esses dois pilares é o que permitirá ao Brasil evoluir de forma estruturada.

O Brasil tem uma vantagem que não está sendo plenamente aproveitada

Poucos países no mundo possuem a estrutura científica e agrícola que o Brasil desenvolveu ao longo das últimas décadas. A experiência em agricultura tropical, melhoramento genético e adaptação de cultivos a diferentes condições climáticas coloca o país em posição privilegiada para também liderar o desenvolvimento científico da cannabis. Essa é uma oportunidade rara. Mas oportunidades só se tornam realidade quando são acompanhadas de investimento, estratégia e visão de longo prazo.

Embora o debate público esteja concentrado no uso medicinal, o potencial da cannabis vai muito além da saúde. Estamos falando de uma planta com aplicações em biotecnologia, fibras industriais, materiais sustentáveis, bioeconomia, cosméticos e indústria farmacêutica.

Reduzir esse debate apenas ao uso terapêutico é limitar uma agenda muito mais ampla de inovação. O momento que o Brasil vive não é apenas científico. É estratégico. A forma como o país decidir investir em pesquisa, genética e inovação hoje vai determinar sua posição na cadeia global da cannabis nas próximas décadas.

Podemos ser apenas consumidores de tecnologia. Ou podemos ser produtores de conhecimento. A diferença entre essas duas escolhas não está apenas no mercado, mas na capacidade de um país desenvolver autonomia científica e tecnológica. O futuro da cannabis no Brasil não será definido apenas pela expansão do acesso ou pela evolução regulatória. Ele será definido pela nossa capacidade de produzir ciência.

Sem pesquisa, não há soberania. Sem genética, não há autonomia. Sem conhecimento, não há inovação. O Brasil tem todas as condições para liderar esse processo. O que precisamos agora é transformar potencial em estratégia e estratégia em ação.

 

Por Beatriz Marti Emygdio
Pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel), é mestre em Agronomia (Melhoramento Genético de Plantas) e doutora em Ciência e Tecnologia de Sementes pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Também realizou aperfeiçoamentos em Biologia Molecular e Genética e Melhoramento Vegetal em instituições internacionais.

 

*Esse é um artigo independente e não reflete, necessariamente, a opinião do Portal.