O Amor que Constrói uma Cidade: 33 Histórias de Uberlândia
Para além do concreto, a alma de uma metrópole do interior se faz de afetos, encontros e pequenos gestos registrados na literatura
Você já parou para pensar sobre o que realmente sustenta uma cidade? A resposta mais fácil aponta para a economia, a infraestrutura, o planejamento urbano. Todos elementos vitais, sem dúvida. Mas, como poeta e observador da sensibilidade humana, proponho um olhar para uma camada mais profunda: a rede invisível de afetos que, de fato, dá vida e resiliência a uma comunidade.

“33 Histórias”
Em meu livro “33 Histórias de Amor que Fala de Uberlândia”, busquei fazer essa radiografia do coração da nossa cidade. Não se trata de amor apenas no sentido romântico, mas do amor como força cívica, como cola social. É o cuidado do feirante que separa a melhor fruta para o cliente idoso; a paciência do professor em uma escola pública do bairro Martins; a solidariedade anônima que surge nos grupos de bairro quando uma família passa por necessidade. Esses microgestos, muitas vezes invisíveis no noticiário, são o verdadeiro alicerce emocional de Uberlândia.
Vivemos uma era de conexões digitais globais, mas de vizinhanças desconhecidas. Enquanto a cidade cresce em vertical e se moderniza, corremos o risco de perder o senso de pertencimento e aquele cuidado com o espaço comum. A saúde pública da qual tanto falamos começa aqui: na qualidade dos nossos vínculos. Uma pessoa que se sente parte de uma comunidade, que tem uma rede de apoio real, é alguém mais saudável, mais engajado e menos vulnerável às doenças da alma, como a solidão e a depressão.
As “33 Histórias” passam por cenários conhecidos nossos: o burburinho da Praça Tubal Vilela, a quietude do Parque do Sabiá, a agitação da Avenida Rondon Pacheco, a história contada nos casarões da Rua Duque de Caxias. Elas mostram que o amor, nas suas múltiplas formas, acontece no tempo e no espaço. Ele não é uma abstração. Ocupa as calçadas, os ônibus, os comércios, os parques. Quando negligenciamos esses espaços de convivência, quando permitimos que se deteriorem ou se tornem hostis, estamos estrangulando as possibilidades de encontro que tecem essa rede de afetos.
Portanto, se queremos uma Uberlândia mais forte, próspera e verdadeiramente saudável, o desafio vai além das obras. É um desafio cultural e humano. Precisamos cultivar a “lealdade emocional” com a nossa própria cidade e com nossos concidadãos. Isso se pratica apoiando o comércio local com um olho no atendimento e outro na história por trás do empreendimento. Se pratica conhecendo o nome do seu vizinho. Se pratica preservando a memória afetiva dos nossos lugares, sem abrir mão do progresso, mas exigindo que ele seja humano e inclusivo.
A proposta é simples, porém transformadora: antes de cobrar apenas ações do poder público, podemos nos perguntar: que história de afeto e cuidado eu estou escrevendo hoje na minha rua, no meu bairro, na minha cidade? A construção de uma Uberlândia melhor não será feita apenas de concreto e asfalto, mas de incontáveis gestos de atenção que, juntos, formam a grande história de amor de uma cidade com sua gente.
Paulo Franco
Poeta, comunicador e pesquisador da sensibilidade humana através da arte e da palavra. Autor de livros como “Aleluminético” e “33 Histórias de Amor que Fala de Uberlândia”.
*Esse é um artigo independente e não reflete, necessariamente, a opinião do Portal.