Como joga o Marrocos: adversário do Brasil abandona fórmula do Catar e aposta em novo estilo
Mais talentoso, mais ambicioso e menos previsível: o Marrocos que enfrentará o Brasil chega ao Mundial em busca de uma nova identidade
Durante quatro anos, enfrentar Marrocos significou encarar uma das seleções mais organizadas do planeta. Foi assim que os africanos surpreenderam o mundo na Copa de 2022, eliminando adversários de peso e alcançando uma semifinal inédita. E sabe onde estava o segredo? Na capacidade de transformar cada partida em um jogo de xadrez.
Aquela seleção tinha uma identidade muito clara. Primeiro, não sofria gols. Depois, encontrava seus espaços para atacar. O volante Sofyan Amrabat virou símbolo desse modelo, protegendo a defesa e controlando os espaços entre as linhas. Atrás dele, Bono viveu uma Copa extraordinária. Na frente, o talento aparecia nos momentos certos para punir adversários que se desesperavam diante do bloqueio marroquino.
Mas o tempo passou, os resultados aumentaram a ambição e o próprio sucesso começou a gerar insatisfação. Dentro de Marrocos, cresceu a sensação de que uma geração cada vez mais talentosa poderia oferecer mais do que apenas solidez defensiva. O torcedor queria uma equipe dominante. Queria ver a seleção controlando jogos, pressionando adversários e assumindo o protagonismo.

Foi nesse contexto que aconteceu uma das mudanças mais surpreendentes do ciclo. A poucos meses da Copa do Mundo, a federação decidiu trocar o comando técnico. Saiu Walid Regragui, responsável pela histórica campanha no Catar, e entrou Mohamed Warby, treinador ligado às categorias de base e ao título mundial marroquino no Sub-20 em 2025.
A mensagem da mudança é clara. Marrocos quer jogar um futebol diferente. Quer ter mais posse de bola, atacar mais e explorar a qualidade técnica que surgiu nos últimos anos. O problema é que mudanças de identidade normalmente levam tempo, e tempo é justamente o que essa seleção não teve.
Nos amistosos disputados em março, Warby já apresentou algumas novidades. Testou formações mais ofensivas, utilizou um falso nove em determinados momentos e buscou aproximar mais jogadores do setor criativo. A ideia parece ser construir um time capaz de controlar partidas através da posse, algo bem diferente do que vimos na última Copa do Mundo.
O elenco oferece material para essa transformação. Hakimi continua sendo uma das principais armas da equipe. Capaz de aparecer por dentro ou pelo corredor direito, o lateral do PSG é praticamente um armador extra quando Marrocos tem a bola. Brahim Díaz é o jogador mais criativo do setor ofensivo. Ezzalzouli segue sendo o driblador capaz de desmontar marcações no um contra um.
No entanto, algumas dúvidas importantes acompanham a seleção africana às vésperas da estreia. A principal delas envolve justamente a adaptação a esse novo modelo. Defender em bloco baixo foi algo treinado durante anos. Atacar com protagonismo é um desafio completamente diferente, especialmente quando o primeiro compromisso é diante do Brasil.

Além das questões táticas, o departamento médico também entrou em cena nos últimos dias. Mazraoui e Ezzalzouli deixaram o amistoso do último domingo (7) com desconfortos físicos e passaram a preocupar a comissão técnica. Ainda não existe confirmação sobre a gravidade dos problemas, mas qualquer limitação pode impactar diretamente a estrutura do time.
A possível ausência de Mazraoui afeta o equilíbrio defensivo de uma equipe que já passa por ajustes. Já Ezzalzouli é justamente o jogador que oferece profundidade, velocidade e capacidade de criar desequilíbrios individuais. São perdas que pesariam para qualquer seleção, especialmente para uma que ainda busca consolidar uma nova identidade.
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Por isso, talvez a grande incógnita do Grupo esteja justamente em Marrocos. O talento parece maior do que em 2022. O elenco parece mais profundo. As opções são mais numerosas. Mas a equipe chega à Copa menos consolidada do que aquela que encantou o mundo no Catar.
O Marrocos de 2022 sabia exatamente quem era. O de 2026 ainda está tentando descobrir. E não existe teste mais duro para essa transformação do que estrear justamente contra o Brasil. A dúvida é inevitável: veremos uma seleção disposta a atacar e assumir riscos ou, diante de um gigante, o velho instinto defensivo voltará a falar mais alto?