Street Fighter volta aos cinemas e eu estive onde tudo começou, lá em 1994
A primeira adaptação do game, Street Fighter - A Batalha Final, hoje já não funciona, mas, confesso, revê-lo não foi a pior coisa do mundo
Existe uma regra, inventada sei lá por quem, que se chama regra dos 15 anos. Ela diz: qualquer filme ao qual você tenha assistido antes dos 15 anos e de que tenha gostado deverá ser reavaliado depois que você se torna adulto. Talvez ele não tenha sido tão bom quanto você pensa. Foi isso que aconteceu comigo recentemente, envolvendo Street Fighter – A Batalha Final, de 1994.
Um contexto: eu tinha 10 anos quando fui assistir à adaptação do sucesso dos games para o cinema. O antigo Cine Center de Uberlândia estava lotado e, pela legislação da época (eu acho), pudemos vê-lo mesmo com a sala cheia. Assisti com primos e minha mãe, sentado na escada. Pois é. E gostei muito, me diverti e posso dizer que a sensação foi a mesma quando o longa chegou às locadoras e o aluguei em VHS.

Disponível neste momento na Netflix, lá fui eu revê-lo, 32 anos depois. E, bem, agora entendo por que o menino de 10 anos gostou — e isso diz muito sobre Street Fighter – A Batalha Final. A produção é uma grande bobagem, com um vilão que poderia estar num filme de Austin Powers e um herói canastrão.
O malvadão é o M. Bison, vivido por Raul Julia, e este é o único ponto alto da adaptação. Este foi o último filme que o ator gravou. Ele morreria ainda em 1994, em decorrência de um câncer. Ciente de sua condição de saúde, aceitou estar em Street Fighter para que seus dois filhos mais novos pudessem ver o trabalho como uma memória especial dele. Eles eram fãs do jogo.
Raul Julia parece ser o único a entender que estar naquele filme era apenas uma grande diversão e fez de seu personagem absurdo uma atuação exagerada e caricata, mas de um jeito leve, o que ajuda muito o filme.
Já Jean-Claude Van Damme, que nunca foi exatamente um grande ator, demonstra um desleixo digno do filme em si. Com problemas com cocaína à época, deu bastante trabalho para a produção e, hoje, é difícil vê-lo atuando aqui.
O fato é que nem a ação do filme funciona muito bem. E é irônico perceber que, por mais espalhafatoso que seja, Street Fighter não consegue abraçar os absurdos de seus personagens originais do game e aplicá-los em suas cenas de ação. Sendo assim, ainda que dê uma piscadela aos fãs ao usar emulações de golpes famosos do jogo, a direção parece ter vergonha de extrapolar o mundano.
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Há muita comédia no filme (os personagens Dee Jay e Zangief, por exemplo, são puro alívio cômico), quase na mesma proporção em que há humor não intencional, como em seu desenho de produção afetado e pobre e nos diálogos muito ruins na maior parte do tempo. Há bizarrices aqui, como o personagem E. Honda, originalmente japonês, sendo vivido por um ator de origem samoana-americana, Peter Navy Tuiasosopo — sabe-se lá por qual motivo. Ken e Ryu são transformados em golpistas. Blanka tem maquiagem de peça de escola, e Dhalsim deixa de ser um monge com poderes psíquicos para ser mostrado como um cientista.
Eu poderia até desculpar a falta de fidelidade ao material original, mas é que o conjunto de Street Fighter é um tanto constrangedor. E, com o rosto parcialmente tapado pela palma da minha mão diante de tantas vergonhas alheias, tenho que ser honesto e dizer que rever a produção foi engraçado e não chegou a me doer.
Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba
*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais