Stranger Things acabou mal, é fato, mas foi importante para mim
O fenômeno de Stranger Things acabou com nota negativa para muita gente, em sua temporada mais fraca, só que para a minha experiência pessoal teve outro significado
Ontem assisti ao famigerado episódio final de Stranger Things. Confesso que essa última temporada me parece a pior de todas. Culpa do roteiro. Mas a série ganhou outro significado para mim desde a temporada anterior. Culpa da minha filha.
Comecemos com as notícias ruins.
Eu nem acredito que o roteiro desse final tenha sido escrito às pressas, pois lá se vão três anos desde a ST4. Mas é claro que faltou revisão e sobrou desleixo. Há furos demais e como a série se esforça para manter seus personagens vivos, não existe qualquer medo de que algo realmente grave aconteça. Isso mina a tensão para um desfecho de tamanha expectativa.
Não vou entrar em detalhes, mas, poxa, há deus ex machina demais em situações que simplesmente poderiam ter sido evitadas. Se o roteirista se mete em um beco sem saída, ele não pode simplesmente tirar uma solução mágica da cartola, isso diminui a credibilidade da trama.
Fora que são inventados novos elementos, como o túnel de minhoca ou prisão em memórias, que vão criando uma complexidade desnecessária para uma história já inchada, isso sem contar nos intermináveis monólogos ou diálogos em pontos nos quais a trama deveria apenas andar – ou correr.
Em suma, é um temporada bem fraca pelo que havia sido feito nas duas anteriores.
Dito isso, tenho que contar que essa é uma série que se tornou importante pra mim.
Lá em 2022, não sei exatamente como, Stranger Things entrou no radar da minha filha. Sarah tinha sete anos. Minha esposa e eu conversamos e, ainda com certo receio, deixamos com que ela assistisse. Fomos com ela. Eu já tinha visto a quarta temporada e revi ST desde o episódio 1.
Esse caminho selou a minha nova percepção sobre a produção.
Stranger Things se tornou uma das coisas preferidas da Sarah. Ela procurava conteúdos, conversava sobre o que víamos, passou a colecionar figurinhas da série.
Eu tinha começado a assistir, lá em 2016, pela curiosidade do fenômeno nostálgico da Netflix. Mesmo sendo alvo das referências oitentistas do programa, não me encantei para além do carisma do elenco infantil. A série foi me convencer apenas na terceira temporada.
Só que fazendo essa recapitulação, ST passou a ser um ponto de contato importante com o mundo da minha filha. Eu gostava de falar com ela sobre a trama, o significado de alguns temas, de como era o mundo lá na década de 1980 e fui baixando a guarda. Não é que a produção tenha apagado os problemas que eu encontrara na primeira visita. Mas minha filha se tornou o elo afetivo com aquilo tudo.
Tivemos tempo para discutir e agora voltar àquele mundo – e criamos expectativas para essa temporada final.
Mais uma vez Sarah esteve ao meu lado.
Por mais que eu reclamasse a cada furo de roteiro que percebia, a grande verdade é que ao receber abraços dela no sofá enquanto assistimos ao episódio final, a minha percepção era de que uma importante parte da minha ligação com a minha filha foi formada com a criação dos irmãos Duffer.
Assim, Stranger Things saiu de mais uma série para um veículo para tentar entender o olhar de Sarah sobre algo que tanto gosto: a produção audiovisual.
É difícil ter isso hoje em dia, com conteúdos tão difíceis de aproximar pais e filhos como aqueles de redes sociais que os jovens gostam – e desagradam tanto aos pais.
Eu poderia agradecer à Netflix ou aos Duffer. Só que o que mudou um pedaço da minha vida foi mesmo minha filha. O laço poderia ser qualquer criação artística, enquanto o fator primordial foi Sarah estar ao meu lado para me levar por outros caminhos em um terreno que já tinha percorrido.
Obrigado, filha.