Primetime e os atrasos de distribuição de alguns filmes no Brasil
Cotado para o Oscar, Primetime será lançado em streaming no Brasil, mas ainda sem confirmação de data; situação que remonta antigos problemas de distribuição no país
O esperado filme Primetime não vai chegar aos cinemas brasileiros e, apesar de ter confirmação de distribuição por meio da plataforma Prime Video, nem se sabe a data certa de disponibilização da produção para os assinantes. Resolvi escrever sobre ele depois de uma coincidência: nesta semana, publiquei a crítica de The Furious, filme com incerteza ainda maior quanto à chegada oficial ao Brasil. O fato é que, se Primetime não vai depender da bilheteria no país, The Furious não poderá reclamar se, em uma possível passagem pelos cinemas, não tiver retorno de bilheteria.
É muito comum que filmes cheguem às salas de exibição brasileiras com grande distância temporal de sua estreia mundial. Isso não só demonstra descaso com a plateia, como abre uma avenida para a pirataria.
Não é difícil encontrar filmes em plataformas de compartilhamento irregular antes de uma distribuição oficial. Afinal, o tempo de exclusividade dos cinemas está cada vez menor e, ao ser disponibilizado para aluguel digital, não demora para que uma legenda de boa qualidade seja lançada junto ao arquivo do filme na internet.
Assisti a The Furious por meio de VOD (sob demanda), o que qualquer pessoa pode fazer com o uso de VPN e um cartão de crédito internacional. E isso já tem alguns meses. Eu aguardava a estreia no Brasil para soltar a crítica, mas, como o filme simplesmente não chegava, resolvi publicar meu texto aqui na coluna Outra Tela.
Algo que me parece bem maluco é essa dificuldade de encontrarem uma janela para encaixe de um filme tão bom de ação, que facilmente encontraria público por aqui. Agora, vazado pela pirataria, sua estreia em salas de exibição se torna um risco que acho difícil que alguma distribuidora assuma.
Hope – O Primeiro Impacto estreou nesta semana no Brasil. Em maio, ele já havia feito barulho em Cannes e, comercialmente, em setembro, foi exibido nos cinemas dos Estados Unidos e do Canadá. Com esse atraso de um mês, ele terá um prazo muito curto antes de disputar público com a pirataria. Digo isso pelo simples motivo de que, em 13 de outubro, Hope chegará para aluguel digital no mercado estadunidense. Ou seja, em menos de uma semana em cartaz por aqui, o longa vazará para o compartilhamento.
Não adianta brigar com isso.

Esses vacilos não são novos e, nas décadas de 1990 e 2000, já aconteciam, muito comumente entre aqueles filmes que tinham expectativa de serem indicados ao Oscar ou de vencer algum prêmio da Academia.
O Segredo de Brokeback Mountain, por exemplo, teve sua estreia e expansão de exibição nos Estados Unidos entre dezembro de 2005 e janeiro de 2006 e só chegaria ao Brasil em fevereiro de 2006, poucos dias depois de suas indicações ao Oscar. Claro, a distribuidora não poderia garantir que ele fosse um dos principais concorrentes ao prêmio daquele ano. Mas existia uma forte possibilidade, e a cobertura brasileira já o tratava como favorito a Melhor Filme. É um caso claro de lançamento que chegou ao país no auge da repercussão da temporada de premiações.
O Paciente Inglês é até mais forte nesse sentido. Em cartaz nos Estados Unidos desde novembro de 1996, chegou aos cinemas brasileiros em fevereiro de 1997, já com 12 indicações ao Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Filme Dramático no currículo. Não esperou a cerimônia, mas ilustra como a temporada de premiações ajudava a impulsionar o lançamento local.
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Mas, voltando ao caso de Primetime, se os exibidores não terão qualquer preocupação com o risco de sua janela de exibição competir com a distribuição irregular pela internet (até porque nenhum cinema vai receber o filme), o público em geral segue sem saber quando poderá assisti-lo.
Com um agravante: duvido bastante que a Prime Video vá lançá-lo ainda em outubro, uma vez que Primetime será exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece entre 15 e 29 de outubro. Nos Estados Unidos, a produção está em circuito comercial desde 25 de setembro.
Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba
*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais