Halloween com filmes que vão além dos sustos
O Halloween está aí e você pode ver um filme de terror com uma reflexão que talvez possa não ter percebido pode causa do medo que sentiu
Os filmes de terror podem ser muito mais do que monstros, mortes violentas e sustos. Em suas histórias mais interessantes, o gênero transforma em pesadelo problemas que a sociedade aprendeu a tratar como normais. Por trás de algumas grandes produções do gênero, existe uma crítica às relações de poder que determinam quem pode exercer controle sobre os outros, quem precisa se submeter e quem acaba pagando o preço. Quando essas contradições ganham formas monstruosas, o terror assusta e, ao mesmo tempo, faz o espectador reconhecer algo perturbadoramente familiar.
Feliz Halloween!

Lançado em 1968, A Noite dos Mortos-Vivos, de George A. Romero, é um marco do cinema de zumbis, mas também permite uma leitura que vai além do apocalipse. O protagonista Ben, interpretado por Duane Jones, é um homem negro que precisa continuar lutando pela sobrevivência em meio ao colapso da sociedade. O desfecho ganha um significado perturbador quando considerado no contexto das tensões raciais dos Estados Unidos daquele período. O filme não precisa apresentar um discurso explícito sobre racismo para expor uma realidade incômoda: mesmo quando a ameaça parece ser a mesma para todos, a maneira como as pessoas são tratadas continua marcada pelas relações de poder existentes fora daquela situação extraordinária.
Em Despertar dos Mortos, lançado em 1978, Romero voltaria à carga com os zumbis. Eles invadem um shopping center e caminham pelos corredores como se ainda estivessem presos aos hábitos da vida anterior. A imagem é simples, mas bastante expressiva: mesmo depois de mortos, continuam atraídos pelo lugar que concentrava boa parte de seus desejos de consumo. Os sobreviventes, por sua vez, encontram no centro comercial uma espécie de refúgio, cercados por mercadorias que parecem oferecer conforto em meio ao fim do mundo. Romero constrói uma sátira sobre uma sociedade organizada em torno do consumo. O filme não condena apenas os zumbis; também questiona a facilidade com que os vivos reproduzem os mesmos comportamentos.
Em Corra!, de 2017, um jovem negro visita a família branca da namorada e, aos poucos, percebe que a aparente cordialidade dos anfitriões esconde algo aterrorizante. O filme de Jordan Peele chama a atenção por não limitar o racismo às manifestações mais evidentes de preconceito. Seus personagens demonstram admiração pela cultura negra e se apresentam como pessoas esclarecidas. Ainda assim, existe uma relação de controle e objetificação por trás desse comportamento.
Em O Homem Invisível, de 2020, dirigido por Leigh Whannell, o terror se aproxima de uma realidade que nem sempre deixa marcas físicas. Cecilia tenta reconstruir a própria vida depois de escapar de um relacionamento abusivo, mas começa a acreditar que seu ex-companheiro continua a persegui-la, mesmo sem ser visto. A premissa sobrenatural transforma em suspense a dificuldade de fazer com que outras pessoas reconheçam a violência psicológica e a manipulação exercidas dentro de uma relação. A produção também mostra como dinheiro, prestígio e credibilidade podem funcionar como instrumentos de poder. O homem invisível não é apenas uma ameaça porque ninguém consegue enxergá-lo, mas porque sua vítima enfrenta dificuldades para provar que está sendo perseguida.

Muitas vezes, Cisne Negro, de Darren Aronofsky, é chamado de terror para quem não gosta de terror. A ameaça se desenvolve dentro e ao redor de Nina, uma bailarina submetida a uma busca obsessiva pela perfeição. A competição profissional entre mulheres de diferentes idades, a cobrança por resultados e a dificuldade de lidar com as amarras impostas por sua mãe contribuem para um processo de deterioração psicológica. A dança se transforma em um ambiente de vigilância permanente, no qual cada falha parece colocar em risco a identidade da protagonista. O filme fala de castração, etarismo e necessidade de desempenho. Tudo isso explode em uma apresentação caótica.
Em Alien, o Oitavo Passageiro, de Ridley Scott, o monstro que ameaça a tripulação não é a única fonte de perigo. A nave comercial Nostromo pertence a uma companhia que demonstra estar mais interessada em obter um organismo potencialmente valioso do que em garantir a segurança dos próprios funcionários. Os tripulantes descobrem que suas vidas podem ser sacrificadas em nome de interesses empresariais que desconhecem. Em um futuro marcado por tecnologia avançada e viagens espaciais, as relações de trabalho continuam submetidas a uma hierarquia na qual quem toma as decisões nem sempre é quem enfrenta os riscos. A criatura representa o horror físico, mas a empresa revela uma ameaça igualmente assustadora, baseada na transformação das pessoas em peças substituíveis.
Em O Animal Cordial, Gabriela Amaral Almeida usa um restaurante como cenário para uma situação de violência que rompe a aparente normalidade das relações entre patrão, funcionários e clientes. O espaço, que deveria ser marcado pela hospitalidade, transforma-se em um ambiente de confinamento e disputa por controle. À medida que a tensão aumenta, ficam expostas as hierarquias, os ressentimentos e as diferentes formas de exercer autoridade. O filme observa como a cordialidade pode funcionar como uma fachada para relações profundamente desiguais e como a posição social de cada personagem influencia sua capacidade de impor a própria vontade. A violência não surge em um vazio: ela encontra terreno em um ambiente no qual respeito, obediência e poder estão longe de ser distribuídos de maneira equilibrada.
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Percebo que meu texto começa a se estender, mas é interessante observar os diferentes caminhos e as mensagens sobre temas recorrentes nesses filmes.
Esses exemplos mostram que o terror nem sempre precisa inventar monstruosidades para provocar medo. Basta olhar para o racismo, o abuso, a exploração e a obsessão pelo consumo. Afinal, o que pode ser mais assustador do que perceber que, às vezes, o verdadeiro horror não está na ficção, mas na própria realidade?
Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba
*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais