Crítica: Obsessão funciona na temática e, sobretudo, por causa de Inde Navarrette
Sem uma atriz como Navarrette, que conseguisse dar conta do errante caminho da personagem, Obsessão teria a força diminuída a ponto de estragar o filme
Tematicamente interessante, para além de seu roteiro, o que garante a grandeza de Obsessão é a excepcional atuação de Inde Navarrette. A produção acabou de chegar para aluguel digital.
Temos aqui mais um caso de filme cuja camada mais interna é bem mais importante que a trama em si. Quando o protagonista Bear, vivido por Michael Johnston, quebra o tal galho do desejo e as coisas saem do controle, com Nikki (Navarrette) se tornando bem mais do que o desejado, o filme vai seguir por caminhos já esperados. Porém, é bom que se esteja atento ao que é dito por baixo dessa história.
Por mais que Nikki se torne um tipo de perseguidora, são os momentos de virada de comportamento, quando ela se pergunta o que está acontecendo, que nos fazem entender que ali vemos uma vítima, e não uma vilã puramente obcecada.
Ao mesmo tempo, a fragilidade sentimental de Bear guarda uma crueldade que só não é maior que sua covardia, sempre em busca de atalhos por conta da falta de traquejo com a situação que vive.
Obsessão é mais sutil nesse tipo de reflexão do que nas imagens em si. Inclusive, quando evita momentos mais gráficos, é sempre mais eficaz. Colocar Nikki em contraluz e transformá-la em uma entidade obscura é mais interessante do que as movimentações estranhas, geralmente criadas por efeitos de edição, ou escondê-la em um canto do quarto. As imagens de terror tradicional e até os momentos em que o gore explode em tela são esperados, mas ver os olhos da personagem brilharem enquanto ela mesma está banhada em sombras é mais instigante.
Por isso, os sustos vindos dos gritos da mulher em lapsos de consciência atingem a plateia mais fortemente do que aqueles em que a violência é explicitada. É o filme sendo esperto sem abrir mão dos jump scares.
Agora, que fique muito claro: sem uma atriz que conseguisse dar conta do errante caminho da personagem escrita pelo roteirista e diretor Curry Barker, Obsessão teria sua força diminuída a ponto de estragar o filme.
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Inde Navarrette tem a grandeza de Mia Goth em Pearl, acentuando a comédia em meio à bizarrice. Mas não se engane: as coisas são realmente estranhas aqui.
A atriz tem grande repertório em referências do terror e, mesmo sem ser original, consegue incorporá-las ao trabalho e transformar Nikki em uma das grandes personagens do gênero.
O pacote é arrematado pela trilha sonora climática e por um final verdadeiramente trágico.
Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba
*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais
