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Coyote vs. ACME: a ironia que virou realidade

A animação Coyote vs. ACME foi engavetada pela Warner, mas acabou resgatada por outra empresa, fato que pode transformar a derrota corporativa em sucesso comercial

, em Uberlândia

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Há bastante ironia no fato de Coyote vs. Acme ter sobrevivido justamente àquilo que sua história satiriza. No filme, o Coyote decide parar de aceitar os acidentes provocados pelos produtos da ACME e leva a empresa aos tribunais. Nos bastidores, aconteceu uma espécie de versão hollywoodiana da mesma história: uma grande corporação decidiu que aquele filme pronto não deveria chegar ao público. A Warner Bros. chegou a tentar transformar a produção em prejuízo fiscal, antes que a repercussão e a pressão de cineastas e fãs ajudassem a manter aberta a possibilidade de encontrar outro comprador.

É difícil imaginar uma publicidade melhor para uma comédia sobre um sujeito enfrentando uma corporação. O Coyote passa décadas sendo esmagado por bigornas, explodido por dinamites e arremessado de penhascos por produtos que deveriam ajudá-lo. O filme, de certa maneira, experimentou sua própria bigorna, sendo produzido, finalizado e, mesmo assim, passando perto de desaparecer antes que alguém pudesse assisti-lo. A diferença é que, desta vez, o vilão estava em uma sala de reunião, e não em uma engenhoca sem garantia de qualidade.

A semelhança da trama do filme com a vida real são pura ironia – Crédito: Divulgação/Ketchup Entertainment/Warner Bros.

Coyote vs. Acme é sobre um consumidor que finalmente decide dizer “chega” depois de anos sendo prejudicado pela companhia que deveria lhe fornecer ferramentas. Na vida real, temos uma produção feita dentro de uma das maiores empresas de Hollywood e que precisou lutar para não ser transformada em uma baixa contábil. O Coyote queria justiça. O filme queria uma data de estreia. Diante deles, havia um gigante corporativo.

A salvação veio, justamente, de uma empresa menor disposta a apostar naquilo que uma gigante considerou dispensável. A Ketchup Entertainment comprou os direitos do longa por aproximadamente US$ 50 milhões e decidiu colocá-lo nos cinemas. É quase como se, depois de passar o filme inteiro tentando provar que a ACME era responsável por seus infortúnios, o Coyote finalmente tivesse encontrado um advogado. Só faltou Will Forte entrar na sala de reunião com uma pasta de documentos e pedir indenização por danos morais. Forte está no filme ao lado do Coyote.

Agora resta descobrir se a vida real terá também um final mais satisfatório do que a maioria das tentativas do Coyote de capturar o Papa-Léguas. A Warner Bros. gastou cerca de US$ 70 milhões na produção, enquanto a Ketchup desembolsou aproximadamente US$ 50 milhões para adquirir o projeto. Se a produção que uma gigante tentou transformar em prejuízo conseguir encontrar seu público, haverá mais uma camada de satisfação, pois veremos a empresa que quase enterrou o filme assistir a outra companhia lucrar com aquilo que ela considerou melhor não lançar.

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E a possibilidade existe, embora não seja simples. As projeções atuais para a estreia americana estão relativamente modestas, na casa de US$ 10 milhões a US$ 15 milhões, enquanto uma previsão mais conservadora aponta para cerca de US$ 6,8 milhões no primeiro fim de semana. Para a Ketchup, porém, o parâmetro não é exatamente o mesmo de um estúdio que teria bancado os US$ 70 milhões de produção. Se Coyote vs. Acme conseguir chegar a algo próximo de US$ 80 milhões a US$ 100 milhões no mundo, somando depois receitas de vídeo sob demanda e outros mercados, já poderemos falar em uma vitória comercial bastante interessante. E talvez essa seja a piada que o próprio Coyote adoraria contar: depois de tantos anos perdendo para a ACME, ele finalmente conseguiu fazer uma corporação perder para ele.

Coyote vs. Acme chega aos cinemas nesta quinta-feira.

Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba

*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais