A Voz de Hind Rajab é o filme mais importante do Oscar 2026
Ao usar áudios reais de uma vítima, A Voz de Hind Rajab personifica crianças no conflito na Faixa de Gaza e se torna um filme que vai além de uma premiação
A história de uma garota presa no carro da família, na Faixa de Gaza, sob ataque de forças militares israelenses, não deveria ser um filme que eu pudesse te indicar para assistir. Esse é um pesadelo. Mas A Voz de Hind Rajab dramatiza ao mesmo tempo em que usa áudios reais da garota, então com 4 anos de idade, para servir de metonímia em um conflito sem fim, cujas reais vítimas são pessoas comuns como Hind Rajab.
O longa-metragem foca nas ligações à Sociedade do Crescente Vermelho Palestino, que envolvem primeiro uma familiar de Hind, que logo é morta, e depois nas conversas da menina com os atendentes da instituição. O carro da família dela foi alvo de tanques e estava a oito minutos de uma ambulância que poderia atender ao pedido de socorro. Mas, é claro, esse tempo foi esticado a um período inimaginável por conta do risco para a equipe socorrista e por uma burocracia de guerra revoltante.

Tudo o que vemos no escritório do Crescente Vermelho é parte do filme ficcionalizada, ainda que se mantenha muito perto do que realmente ocorreu naquele dia. Já as vozes ao telefone, no front, são da verdadeira Hind Rajab. Isso dá um peso tão grande ao filme, que não só o batiza, mas te coloca em um estado de apreensão que beira o desespero.
O filme é cru e, por isso mesmo, difícil de assistir. A tensão aumenta porque o que se ouve é real, do horror aos zumbidos balísticos.
Traz indignação em alguns momentos, porém é complicado se colocar na posição de personagens reais aos quais somos apresentados.
Particularmente, penso que mostrar o sofrimento dos atendentes, por mais que seja necessário como obra cinematográfica, acaba passando do ponto esporadicamente. O que não é simples de avaliar, pois nunca duvido de que a angústia ali tenha sido real.
A Voz de Hind Rajab, inclusive, é quase zerado de qualquer firula cinematográfica. Ótima decisão da diretora Kaouther Ben Hania. É bem pertinente, entretanto, que ela use uma imagem real feita por um smartphone como se fosse captada enquanto os atores simulam a cena no quadro do filme. É a obra lembrando que estamos vendo algo tristemente verdadeiro. A escolha do momento é perfeita.
A Voz de Hind Rajab dá personalidade às vítimas do conflito e é o filme mais importante deste Oscar de 2026. Ele foi indicado à categoria de Filme Internacional, indo além de avaliações que um crítico possa fazer — ou de gosto pessoal — por se tratar de uma obra respeitosa e de denúncia.
Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba
*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais