Qual o começo de hoje?
Talvez a vida não peça que a gente abrace todos os caminhos
À primeira vista vi bagunça. A escrivaninha presente de uma amiga estava lotada. A vi enquanto acolhia o fim de tarde do domingo sentada na minha cama sem saber se assistia a uma série ou bordava. Os cadernos estavam um sobre o outro como se compartilhassem o conhecimento. Uma xícara com desenho de um pavão e uma relíquia de família abrigavam lápis, canetas, uma tesoura criando uma atmosfera para criar, às vezes dissipada pela pressa ou cansaço.

Olhei demoradamente para tudo aquilo. Primeiro veio uma sensação de culpa por tanta desarrumação. Depois apaziguei a minha autocrítica e mudei a forma de encarar aquele canto. Enxerguei promessas silenciosas. Como se as cores dos objetos de escrita esperassem por ideias que não sabiam por onde nascer. Livros abertos e fechados, todos dizendo, à sua maneira: “por aqui também”.
Sentei diante dela e, por um instante, não soube por onde ir.
Não por falta de caminho — mas pelo excesso deles. Convidei a paciência para sentar ao meu lado.
Havia um tempo em que eu acreditava que precisava dar conta de tudo.
Ler todos os livros. Preencher todas as páginas.
Aproveitar todas as ideias antes que elas desaparecessem.
Mas hoje percebi: isso também cansa. Não é o fazer que pesa. É o acúmulo de possibilidades não escolhidas. A mesa, então, deixou de ser um lugar de criação e passou a ser um lugar de cobrança.
Foi quando entendi — quase como quem escuta um sussurro — que viver também exige recorte.
Que começar é, inevitavelmente, deixar algo de fora.
Então, afastei alguns cadernos, fechei um livro,vdeixei apenas o que cabia no agora. E, no pequeno espaço vazio que se abriu, algo dentro de mim também respirou.
Talvez a vida não peça que a gente abrace todos os caminhos.
Talvez ela peça só isso, com delicadeza: que a gente escolha, entre tantos possíveis,
qual começo é o de hoje.