Mônica Cunha

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O jardineiro anônimo

A vida floresce onde ninguém olha. O jardineiro que me ensinou a observar o agora

, em Uberlândia

Eu o vi de perto, mas foi tão rápido. Ele, em meio à terra e às plantas; eu, apressada no banco do passageiro, tentando, nesses instantes fugazes, perceber o belo que me cerca.

Não sei o nome desse homem. Quando passei, ele se virou e sorriu. Não foi para mim, claro. Foi para alguém do outro lado da avenida — talvez um vizinho que virou amigo no tempo em que ele semeava aquele terreno inóspito. Há quase dois anos, o que antes era um abandono foi revigorado pelas mãos de um cidadão anônimo. Para mim, no entanto, ele sempre foi visível, desde que notei que ali se reconstruía a natureza.

jardineiro
Crédito: Arquivo pessoal

Lembro-me de que o “paisagismo” surgiu devagar. Algumas plantas comuns brotando a cada toque de sol e água da chuva. Dos metros tímidos a um espaço maior, entre o concreto e a escola, o jardim ganhou corpo: há árvores de flores brancas, espadas-de-são-jorge que crescem como lanças e até uma que tenho em casa, o jasmim-manga, com suas flores cor de pôr do sol.

O jardineiro é cuidadoso. Há um frescor ali, mesmo no inverno seco do cerrado.

Ver aquele homem me trouxe uma palavra: perseverança. Ele persevera, ele resiste. Sim, certa vez passaram o rastelo e a foice, matando o que surgiu de um gesto solitário e sustentável. Pensei, à época, que ele nunca mais voltaria. Mas ele está lá. Concentrado, dedicado ao que deve ser o seu afazer preferido do dia — ou assim eu sinto.

E, ao vê-lo, eu me inspiro. E sigo.