Mônica Cunha

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Ainda, Alice, a vida que segue em outras vidas

A família escolheu doar seus órgãos. E, agora, ela segue… em outros

, em Uberlândia

Alice
Foto: Arquivo pessoal/Rede Social/Divulgação

 

Ela ainda permanece na minha mente. E no meu coração também. Eu não a conhecia. Não era amiga dela. Mas havia algo que nos unia — o ofício. Escolhemos, em tempos diferentes, a mesma profissão, o jornalismo. E sei, com uma certeza silenciosa, que compartilhávamos a mesma paixão: a de apurar, contar, dar forma ao que precisa ser dito.

Alice. Nome de personagem, da menina que busca horizontes entre pautas, urgências e histórias. Mas no auge dos seus trinta e poucos anos, ela partiu. E isso não encaixa. Machuca. Desde o acidente, o rosto da repórter – a cada vez que aparece – fica nos meus pensamentos e algo em mim dói.

Uma dor que não é só pela perda, mas pela repetição de um descuido que já conhecemos. A BR-381 é uma das estradas mais perigosas desse país. E a gente acompanha há décadas um arrastar de soluções que pouco chegam.

Alice não estava só. Com ela, também partiu o cinegrafista Rodrigo Lapa. E, de repente, a notícia repercutiu em mim. Me vi neles imediatamente. Quantas vezes percorri caminhos assim, sem pensar que o fim poderia estar ali, na próxima curva.

Alice tinha uma família. Um bebê. Um marido. Planos que ainda nem tinham sido escritos.
E diante de uma situação como essa a pergunta insiste — por quê? Destino? Hora? Fatalidade?

Ninguém sabe.
O que sabemos é do choro.
Da indignação. E da saudade — essa que pertence, de verdade, àqueles que conviveram e a amaram.

Alice não vai viver tudo o que ainda viria.
Porém, em um gesto imenso, sua vida não terminou nela. A família escolheu doar seus órgãos. E, agora, ela segue… em outros.

Respirando, pulsando, continuando.

E talvez seja isso que hoje sustenta e cura um pouco o coração: entender que a vida, às vezes, encontra jeitos de permanecer.