A beleza dos dois outonos em nós
Uma crônica sobre a transição das estações, o silêncio do Cerrado e a arte de se transformar com elegância
Há um tipo de outono que não pertence ao lugar; pertence à memória. Reencontrei-o em um dia de céu azul espalhado, daqueles que não chegam com força, mas com presença. Um azul que não disputa espaço com nada; apenas está e, por isso, acalma. Debaixo dele, as árvores não economizavam coragem: vestiam-se de vermelho — um vermelho vivo, quase audível — como se quisessem lembrar que até o fim pode ser bonito.

Parei. Não por decisão, mas por rendição. Algo em mim reconhecia aquela cena, como quem encontra uma antiga versão de si mesma caminhando ali, entre cercas de madeira e silêncios longos. Fiquei um tempo encostada na cerca, como quem segura o mundo com as mãos. Mas era o mundo que me segurava. Por um instante raro, tudo estava no lugar certo: o céu, as folhas, o tempo… e eu.
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O outono daquele lugar, contudo, era diferente do meu. Bem mais intenso nas cores. No Cerrado, ele é discreto, quase um sussurro. Não há anúncio, excesso ou espetáculo; há permanência. As paineiras, tão próprias desta estação, deixam suas flores irem. O chão se cobre de um rosa que não grita.
E o céu… permanece. No outono, ele é de um azul que não invade — acolhe. Que não exige o olhar — convida. Talvez seja isso que mais me encanta na estação: a elegância de tudo ir embora sem fazer barulho. Por mais que as árvores percam suas folhas, não precisa ser perda; pode ser apenas transformação.
Talvez o outono ensine justamente isto, em seus dois gestos: um revela, o outro sustenta.