Mônica Cunha

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A beleza dos dois outonos em nós

Uma crônica sobre a transição das estações, o silêncio do Cerrado e a arte de se transformar com elegância

, em Uberlândia

Há um tipo de outono que não pertence ao lugar; pertence à memória. Reencontrei-o em um dia de céu azul espalhado, daqueles que não chegam com força, mas com presença. Um azul que não disputa espaço com nada; apenas está e, por isso, acalma. Debaixo dele, as árvores não economizavam coragem: vestiam-se de vermelho — um vermelho vivo, quase audível — como se quisessem lembrar que até o fim pode ser bonito.

Mônica Cunha
Crédito: Arquivo pessoal

Parei. Não por decisão, mas por rendição. Algo em mim reconhecia aquela cena, como quem encontra uma antiga versão de si mesma caminhando ali, entre cercas de madeira e silêncios longos. Fiquei um tempo encostada na cerca, como quem segura o mundo com as mãos. Mas era o mundo que me segurava. Por um instante raro, tudo estava no lugar certo: o céu, as folhas, o tempo… e eu.

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O outono daquele lugar, contudo, era diferente do meu. Bem mais intenso nas cores. No Cerrado, ele é discreto, quase um sussurro. Não há anúncio, excesso ou espetáculo; há permanência. As paineiras, tão próprias desta estação, deixam suas flores irem. O chão se cobre de um rosa que não grita.

E o céu… permanece. No outono, ele é de um azul que não invade — acolhe. Que não exige o olhar — convida. Talvez seja isso que mais me encanta na estação: a elegância de tudo ir embora sem fazer barulho. Por mais que as árvores percam suas folhas, não precisa ser perda; pode ser apenas transformação.

Talvez o outono ensine justamente isto, em seus dois gestos: um revela, o outro sustenta.