Eliana estreia na Globo com programa bonito, mas ainda sem “molho”
Entre cenários impecáveis e uma apresentação segura, estreia de Eliana na Globo levanta debate sobre espontaneidade, formato e o desafio de conquistar o público dominical
A estreia de Eliana na TV Globo, com o programa Em Família, era um dos momentos mais aguardados da TV aberta no último domingo (15/03). A emissora criou uma expectativa enorme em torno do projeto, com divulgação intensa e promessa de um novo formato para os domingos. Mas, depois da estreia, ficou a sensação de que algo ainda não encaixou completamente.

O programa é bonito, bem produzido e tecnicamente impecável. Cenário moderno, fotografia bem trabalhada, telões, iluminação caprichada. Tudo muito bem executado, como se espera de um produto da Globo. A Eliana também está segura, elegante e claramente confortável no palco. Mas, apesar de toda essa qualidade estética, ficou uma impressão difícil de ignorar: faltou “molho”.
A sensação é de um formato um pouco engessado, quase como um programa enlatado. Não faltam recursos, mas talvez esteja faltando espontaneidade. E isso chama atenção principalmente quando lembramos da trajetória da apresentadora no SBT, onde ela construiu uma relação muito direta com o público.
Aliás, no mesmo domingo, o Domingo Legal, comandado por Celso Portiolli, apareceu com cenário renovado e bastante conteúdo ao vivo, o que, historicamente, sempre deu mais dinamismo aos programas de auditório.
Outro ponto que chama atenção é o próprio nome da nova atração. Em Família parece limitar um pouco a proposta do programa, como se tudo tivesse que girar apenas em torno desse conceito. Talvez um título mais direto, como “Programa da Eliana”, desse mais espaço para a identidade da apresentadora aparecer com força.
E aqui entra uma questão importante: a Eliana que muitos telespectadores aprenderam a gostar sempre foi espontânea, animada, participativa nas brincadeiras. Era uma apresentadora que entrava no jogo com o público. Na estreia na Globo, ela apareceu mais contida, o que não é um problema em si, mas acaba criando uma distância em relação àquela comunicadora vibrante que marcou época.
Há também um detalhe técnico que continua incomodando em muitos programas de auditório da Globo: a edição. Cortes muito visíveis e aquela sonoplastia de aplausos e risadas que, muitas vezes, soa artificial. É algo que lembra bastante o estilo de edição do Esquenta!, apresentado por Regina Casé, em que o uso constante de reações de plateia gravadas acabava tirando um pouco da naturalidade do momento.
Na estreia, os convidados foram Pedro Bial, acompanhado da esposa, e o cantor Belo. Eles estiveram no palco, mas pouco se aproveitou da presença dos dois, algo até compreensível para um primeiro programa. Houve também um quadro externo com Daniel, num bate-papo mais íntimo com a apresentadora. Foi simpático, mas sem grandes novidades.

Outro desafio é o tempo de duração. Na Globo, o programa tem cerca de uma hora e quinze minutos no ar. Bem diferente das quase quatro horas que Eliana comandava aos domingos no SBT.
Mesmo assim, a audiência respondeu bem. A estratégia da Globo de antecipar a formação do paredão do Big Brother Brasil ajudou a segurar o público na tela, e a estreia marcou média de 10,6 pontos. No mesmo horário, o Domingo Legal registrou cerca de 5,5 pontos, enquanto a Record ficou em terceiro lugar com média de 4,4.
Apesar das críticas, é impossível não torcer pela Eliana. Ela tem uma carreira sólida, construída ao longo de décadas na televisão, e talento de sobra para ocupar um espaço importante na Globo. Mas talvez ainda falte aparecer aquela Eliana mais solta, mais brincalhona, aquela que se joga na diversão com o público.
Porque, como dizia Silvio Santos, domingo é dia de animador de televisão. E nessa histórica guerra de audiência dominical, quem não anima… corre o risco de dar sono.