Mídia e Bastidores

Mídia e Bastidores por Júnior Caritel: análise crítica da TV, internet e famosos. Um giro pelos bastidores que influenciam o público dentro e fora da tela

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As mudanças na história de Dona Beja na nova versão da HBO

Com Grazi Massafera no papel principal, releitura resgata o clássico de 1986 e introduz temas como diversidade, sexualidade e novos conflitos sociais

, em Cristalina/GO

A plataforma da HBO Max colocou no ar os dez primeiros episódios da releitura de Dona Beja (e este colunista que vos fala já maratonou todos eles). A produção chega com a missão de revisitar um clássico da teledramaturgia brasileira, originalmente exibido em 1986 pela extinta TV Manchete, e protagonizado por Maitê Proença. Agora, em 2026, a história retorna repaginada, com Grazi Massafera no papel principal e que está interpretando brilhantemente.

Dona Beja e Severina (à esquerda) na nova versão de Dona Beja da HBO Max – Crédito: Reprodução/Internet

Inspirada na figura histórica de Ana Jacinta, a trama acompanha a trajetória da famosa cortesã que viveu em Araxá, no século XIX. A essência da história criada por Wilson Aguiar Filho permanece reconhecível, mas a nova versão aposta em atualizações profundas de abordagem, linguagem e temas.

Logo de cara, há um detalhe simbólico que diferencia as duas obras: a grafia do nome. Na versão original, era “Dona Beija”, com “i”. Na adaptação atual, o título passa a ser “Dona Beja”. Pequena mudança que reforça o caráter de releitura, não é a mesma obra, é uma nova leitura para um novo tempo.

Grazi Massafera e Maitê Proença viveram a história de Ana Jacinta, a Dona Beija de Araxá – Crédito: Reprodução/Internet

Diversidade em destaque

Se a novela de 1986 abordava com força o contexto da escravidão, afinal, Ana Jacinta nasceu em um período escravocrata, a nova produção opta por um caminho diferente. Os personagens negros não aparecem mais como escravizados, e a narrativa desloca o debate para outras pautas sociais contemporâneas. Porém, a nova trama ainda destaca o preconceito racial.

A diversidade é um dos pilares da trama da HBO. A melhor amiga de Beja, por exemplo, é uma mulher trans que foi salva pela protagonista de uma fogueira em Paracatu, onde seria castigada por um padre. Trata-se de uma mudança profunda em relação à primeira versão, na qual a lealdade à protagonista vinha principalmente dos personagens escravizados, como Severina, mulher negra que acompanhava Beija.

Outro ponto forte é a abordagem da gordofobia. A personagem Carminha, filha de Costa Pinto, sofre constantes críticas da própria mãe, Dona Augusta, por conta da aparência física, um tema atual que dialoga diretamente com o público contemporâneo.

Sexualidade e novos conflitos

A releitura também amplia o debate sobre sexualidade. Maria, irmã de Antônio, é apaixonada por Beja e chega a declarar seus sentimentos antes de seguir para um convento. Em 1986, essa mesma personagem vivia um romance confuso com Vado, o caseiro da família Sampaio, mas que também chegou a dedicar sua vida ao celibato.

Outro arco inédito é o do Boticário, curandeiro e farmacêutico, amigo fiel de Beja, que enfrenta conflitos internos por seus desejos por outros homens. Na versão original, esse personagem demonstrava uma leve admiração pela protagonista, mas nunca teve qualquer envolvimento amoroso com ela.

Uma nova leitura, sem perder a essência

Apesar de tantas mudanças, a espinha dorsal da narrativa permanece fiel ao espírito criado por Wilson Aguiar Filho: a ascensão de uma mulher à margem da sociedade, desafiando moralidades e hipocrisias de sua época.

A nova Dona Beja é, portanto, mais do que um remake, é uma releitura que atualiza discussões, amplia representatividade e provoca o espectador a revisitar a história sob outra ótica. Ao mesmo tempo, mantém viva a força de uma personagem que atravessa gerações e continua fascinando o público brasileiro.