Debates esvaziados: o eleitor cobra respostas e candidatos oferecem o silêncio
Ausências sucessivas em debates de televisão revelam uma eleição em que a estratégia das campanhas começa a se sobrepor ao dever de apresentar ideias, propostas e posições à sociedade
Há algo profundamente errado quando uma eleição começa a ser disputada sem que os candidatos que pretendem governar o país ou um Estado se disponham, com regularidade, a enfrentar perguntas, adversários e, principalmente, o eleitor.
A notícia desta quarta-feira talvez seja o exemplo mais eloquente disso. A Record anunciou o cancelamento do debate presidencial que estava previsto para domingo, 27 de setembro, depois que os dois candidatos que, segundo as pesquisas mais recentes, concentram mais de 35% das intenções de voto cada um informaram que não participariam. Somados, eles representam cerca de 70% das intenções de voto consideradas no comunicado.
A justificativa da emissora é absolutamente compreensível: um debate realizado a poucos dias do primeiro turno tem justamente a finalidade de colocar frente a frente as principais propostas em disputa. Sem os candidatos que concentram a maior parcela das intenções de voto, o confronto perde parte substancial de sua finalidade.
Mas existe uma questão ainda maior por trás do cancelamento: até que ponto a estratégia eleitoral pode se sobrepor ao direito do eleitor de conhecer e confrontar aqueles que pedem seu voto?

Não foi um episódio isolado
No primeiro debate presidencial das eleições de 2026, promovido pela Band em 23 de agosto, apenas três dos seis candidatos convidados estiveram no estúdio: Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury. Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema não compareceram. A própria Band manteve os três púlpitos vazios no cenário.
Em Minas Gerais, o cenário voltou a se repetir. Na segunda-feira (21), a Record Minas convidou seis candidatos ao Governo do Estado em um debate concebido justamente para permitir que o eleitor conhecesse propostas, posições e prioridades dos concorrentes. Dos seis convidados apenas Gabriel e Mateus Simões compareceram.
Alexandre Kalil comunicou que não participaria pois os adversários não haviam confirmado presença, Patrus Ananias só avisou faltando uma hora para o debate começar, sob a justificativa de esvaziamento do evento e Cleitinho Azevedo sequer enviou representante para participar das reuniões preparatórias. Já Flávio Roscoe, informou que estava internado após ser diagnosticado com Covid-19.
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O cálculo eleitoral
É evidente que campanhas eleitorais fazem cálculos. Um candidato avalia o risco de um debate, o potencial de exposição, o desempenho de seus adversários, a possibilidade de cometer um erro, o ganho de audiência e até o impacto de uma resposta mal formulada, tudo isso faz parte da política.
Mas há uma fronteira que não deveria ser ultrapassada: a eleição pertence ao eleitor tanto quanto pertence aos candidatos. Quem pede o voto de milhões de brasileiros está pedindo, na verdade, um mandato para tomar decisões que afetarão milhões de pessoas. E o cidadão precisa ter condições de saber o que esse candidato pensa, como pretende governar, quais são suas prioridades e, sobretudo, como reage quando confrontado com perguntas difíceis.
Um vídeo cuidadosamente editado para as redes sociais não substitui um debate. Uma propaganda eleitoral de 30 segundos não substitui uma entrevista. Uma postagem produzida pela equipe de comunicação não substitui uma pergunta feita por um jornalista. E um discurso para uma plateia de apoiadores não substitui o confronto com adversários.
É justo reconhecer que o próprio Congresso Nacional contribuiu para tornar o calendário eleitoral mais apertado. A Reforma Eleitoral de 2015 reduziu o período oficial de campanha de 90 para 45 dias e diminuiu de 45 para 35 dias o período de propaganda eleitoral no rádio e na televisão. A mudança teve, entre seus objetivos declarados, a redução dos custos das campanhas.
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É verdade, portanto, que os candidatos têm menos tempo para cumprir uma agenda gigantesca, mas essa explicação não pode ser transformada em justificativa para o esvaziamento dos debates. Afinal, eleições posteriores à mudança da legislação demonstraram que era possível conciliar uma campanha mais curta com a participação dos candidatos em entrevistas, sabatinas e debates.
O problema, portanto, não é apenas o tamanho do calendário. É também a prioridade que cada campanha atribui aos espaços de confronto público. Existe uma diferença fundamental entre fazer campanha e disputar uma eleição.
Na campanha, o candidato escolhe o que dizer. Na democracia, o eleitor precisa ter a oportunidade de perguntar.Quando os principais candidatos começam a selecionar quais entrevistas concederão, quais debates enfrentarão e quais perguntas aceitarão responder, corre-se o risco de transformar a eleição em uma sucessão de conteúdos previamente controlados.
E isso reduz justamente aquilo que uma eleição deveria ampliar: a capacidade de o cidadão fazer uma escolha consciente.
O direito de escolher e o direito de conhecer
No fim das contas, a discussão não é sobre Band, SBT, Record, Globo ou qualquer outra emissora. É sobre uma regra básica da democracia: quem pede o voto precisa estar disposto a se apresentar ao eleitor.
Não existe obrigação jurídica geral de comparecer a todo debate para o qual um candidato seja convidado. E é legítimo que uma campanha organize sua agenda e faça escolhas estratégicas. Mas existe uma responsabilidade política muito maior do que a estratégia de uma campanha: dar ao eleitor condições reais de decidir.
Quando um debate é cancelado porque os principais candidatos decidiram não participar, é sinal de que talvez estejamos colocando a estratégia eleitoral acima do direito de o eleitor conhecer, comparar e questionar aqueles que querem governá-lo. E, numa democracia, essa inversão promíscua compromete a qualidade da eleição, a credibilidade do processo e até a legitimidade dos eleitos.