Técnicas e tecnologia possibilitam que vinícolas do Triângulo Mineiro ganham espaço na vitivinicultura nacional

Colheita no inverno, sensores de solo e análise de dados impulsionam produção de vinhos finos em cidades como Uberaba e Sacramento, atraindo consumidores, prêmios e turistas

, em Uberlândia

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Se perguntarmos a qualquer brasileiro de onde vêm os vinhos produzidos no país, a resposta instintiva, em grande parte, será: do Sul. Não é uma resposta errada. O Rio Grande do Sul, com seu clima temperado e estações bem definidas, responde por cerca de 50% da produção nacional de uvas, especialmente para vinhos.

No entanto, vinícolas do Triângulo Mineiro, uma região marcada por café, soja e pecuária, ganham espaço nesse cenário. As cidades de Uberaba e Sacramento têm se destacado como novos centros vitivinícolas, impulsionados pela tecnologia, análise de dados e técnicas inovadoras, o que tem elevado a qualidade e a competitividade dos vinhos mineiros no mercado nacional e internacional.

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A paisagem do Triângulo Mineiro, antes marcada por café e pecuária, agora também abriga vinhedos que surpreendem pela qualidade e inovação
A paisagem do Triângulo Mineiro, marcada por café e pecuária, agora também abriga vinhedos que surpreendem pela qualidade e inovação – Crédito: Erasmo Pereira/ Agência Minas/ Reprodução

O Triângulo Mineiro não possui o clima temperado típico das regiões vinícolas tradicionais. Com duas estações bem definidas — uma seca e outra chuvosa — e uma umidade relativa do ar que pode chegar a 12% ou 13% no outono e inverno, a região apresenta desafios para o cultivo de uvas.

Em climas quentes como o de Minas Gerais, as videiras tendem a produzir frutos o ano inteiro, mas com baixa rentabilidade e qualidade inferior. Foi aí que a tecnologia entrou como protagonista, transformando o cerrado mineiro em uma terra promissora.

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A técnica da dupla poda de videiras, desenvolvida pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), revolucionou a vitivinicultura. Essa prática, que fortalece a produção também na região, consiste em realizar duas podas anuais nas videiras, ajustando o ciclo de produção para que a colheita ocorra nos meses mais secos e frios, entre julho e agosto.

A dupla poda permite colher os frutos em um clima mais frio, sem chuvas, garantindo alta qualidade. Hoje, temos uvas como Syrah, Cabernet Sauvignon, Sauvignon Blanc e Marselan sendo produzidas com sucesso no Triângulo.

A técnica da dupla poda permite que uvas sejam colhidas no inverno, garantindo vinhos mais estruturados e elegantes, dando o destaque as vinícolas do Triângulo Mineiro
A técnica da dupla poda permite que uvas sejam colhidas no inverno, garantindo vinhos mais estruturados e elegantes, dando o destaque as vinícolas do Triângulo Mineiro – Crédito: Vinícola Guaspari/ Reprodução

Na prática: do terreno à garrafa

A tecnologia não foi utilizada apenas para identificar cidades como Uberaba e Sacramento como aptas para o cultivo de uvas. Ela está presente em todas as etapas da produção, garantindo a manutenção de padrões de qualidade que colocam os vinhos do Triângulo em pé de igualdade com rótulos consagrados.

Um exemplo é a Vinícola Arpuro, a primeira do Triângulo Mineiro, instalada em Uberaba. Iniciado em 2021, o projeto da Arpuro é um marco de inovação, utilizando estações meteorológicas para monitoramento em tempo real do clima e do solo.

Sensores de temperatura e umidade, aliados a sistemas de irrigação automatizados, permitem ajustes precisos no cultivo de uvas como Syrah, Marsanne e Sauvignon Blanc.

Em Sacramento, a Sacramentos Vinifer também se destaca, com seu rótulo Sabina Syrah sendo eleito o melhor vinho tinto brasileiro em 2022 e 2023 pelo Guia Descorchados. A vinícola, fundada em 2010,investe em tecnologia para otimizar o cultivo de uvas Syrah e Sauvignon Blanc na Serra da Canastra.

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As vitiviniculturas em MG

Minas Gerais não é novata na produção de vinhos, mas o Triângulo Mineiro é uma fronteira recente. O estado já conta com cerca de 122 vinícolas em operação ou em fase de estruturação, sendo o sétimo maior produtor nacional.

A região Sul de Minas, com destaque para Andradas, é o principal polo, com vinícolas como a Casa Geraldo, que tem mais de 50 anos de tradição e é referência em enoturismo.

Com mais de 50 anos de tradição, a Casa Geraldo é referência no Sul de Minas, mas novas vinícolas no Triângulo vêm ganhando destaque
Com mais de 50 anos de tradição, a Casa Geraldo é referência no Sul de Minas, mas novas vinícolas no Triângulo vêm ganhando destaque – Crédito: Casa Geraldo/ Reprodução

No entanto, o Triângulo e o Alto Paranaíba, com vinícolas em cidades como Araxá, Cruzeiro da Fortaleza, Patos de Minas, Patrocínio, Serra do Salitre, Sacramento e Uberaba, estão ganhando espaço rapidamente.

Um exemplo é a Bruma Alta, projeto vitivinícola no Cerrado Mineiro em desenvolvimento em Patrocínio e Serra do Salitre. Recentemente, lançaram sua primeira safra em um evento chamado “Vinhos & Vidas”. O objetivo é destacar o potencial do Cerrado Mineiro na produção de vinhos finos.

O crescimento da vitivinicultura mineira é impulsionado pela combinação de tecnologia e técnicas para entender o comportamento das uvas, a qualidade dos frutos e do vinho. Isso garante que o Triângulo produza vinhos finos nobres com resultados surpreendentes.

A expectativa é que a produção de vinhos finos em Minas cresça 600 mil litros nos próximos anos, com foco em rótulos de inverno, voltados para o mercado de luxo.

Impacto econômico e turístico

Além da qualidade dos vinhos, o Triângulo Mineiro está apostando no enoturismo como motor econômico. A Vinícola Arpuro, por exemplo, já atrai visitantes com degustações harmonizadas, oferecendo bruschetas e pão de queijo com pernil, harmonizados com vinhos brasileiros.

A Vinícola Arpuro, em Uberaba, alia enoturismo, tecnologia e gastronomia local para atrair visitantes e fortalecer a economia regional
A Vinícola Arpuro, em Uberaba, alia enoturismo, tecnologia e gastronomia local para atrair visitantes e fortalecer a economia regional – Flávio Malagoni/ Google Maps/ Reprodução

A iniciativa gerou empregos fixos em Uberaba e planeja capacitar mão de obra local por meio do Instituto Arpuro, focado em vitivinicultura e gastronomia.

Em Sacramento, a Sacramentos Vinifer também planeja futuramente planeja um espaço enoturístico. Além disso, eventos como o Brasil na Taça, que ocorreu em Uberlândia neste mês de maio, destacam a diversidade e qualidade dos vinhos mineiros, atraindo consumidores e investidores, promovendo que a Rota dos Vinhos de Minas se consolide cada vez mais.